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Wagner Moura, o truculento capitão Nascimento de Tropa de Elite, vive os conflitos existenciais do personagem mais célebre de Shakespeare

Por Sérgio Roveri – Diário do Comércio


Houve um momento durante os ensaios de Hamlet em que o ator Wagner Moura, 32 anos na semana que vem, decidiu parar de assistir aos filmes em que o personagem foi interpretado por atores tão díspares como Laurence Olivier e Mel Gibson, Ethan Hawke e Kenneth Branagh. Se levasse a cabo esta aventura cinematográfica, talvez a peça não estivesse pronta para estrear na última sexta-feira (20) já que existem mais de 70 filmes dedicados a contar a vida deste atormentado príncipe da Dinamarca, criado por Shakespeare no século XVI, e que teve o pai assassinado pelo tio para usurpar-lhe o trono.
Mas não foram apenas os números que assustaram Moura. O ator baiano, saído de dois grandes sucessos – o capitão Nascimento do filme Tropa de Elite e o vilão Olavo da novela Paraíso Tropical – quis livrar-se de qualquer provável influência para encontrar as feições do seu próprio príncipe. “Hamlet só perde para Jesus Cristo em número de ensaios publicados sobre ele”, diz o ator. “É uma fonte de leitura inesgotável. Chega uma hora em que você precisa parar de pesquisar e subir no palco para efetivamente colocar a mão na massa”.
No caso específico desta montagem, que fica em cartaz até 28 de setembro no Teatro Faap, Moura não se mostrou comedido na tal hora de pôr a mão na massa – além de ser o protagonista, o ator ainda responde pela produção do espetáculo e parte da tradução, dividida com a professora de inglês Bárbara Harrington, americana radicada no Rio de Janeiro. “Optamos por uma nova tradução para que as palavras escritas por Shakespeare há 400 anos soassem atuais na boca dos atores”, diz o diretor Aderbal Freire-Filho. “Shakespeare escrevia para ser encenado, e não para ser lido. Nossa tradução está levando isso muito a sério. As frases da peça agora são saboreadas pelos atores como se fossem um excelente filé-mignon”.
Moura diz que o sonho de fazer Hamlet o acompanha desde os 16 anos, quando ainda era estudante em Salvador. E é lá que ele foi buscar parte do elenco da peça – um grupo de amigos atores ao lado dos quais sua carreira teve início. Em um dos camarins da Faap, em cujo espelho ele afixou uma foto do filho de um ano e três meses, Wagner Moura concedeu a seguinte entrevista ao Diário do Comércio.

Diário do Comércio: No que o seu Hamlet pretende ser diferente dos inúmeros outros já feitos no cinema e no teatro?
Wagner Moura:
Este personagem é tão grande que comporta um número infinito de interpretações. Nenhum Hamlet é igual a outro. Nunca pensei em buscar um diferencial, uma contribuição que todos os outros atores que já fizeram este papel ainda não tenham dado. O que importa, para mim, é a oportunidade de ser mais um. Sempre é louvável montar Hamlet para popularizar o personagem e torná-lo ainda mais acessível.

Você acredita que Hamlet pode representar um exercício de auto-confiança para um ator, de modo a prepará-lo para qualquer outro desafio na carreira?
Não sei se o personagem oferece um carimbo de qualidade para um ator. Só sei que qualquer ator vai sair fortalecido desta experiência. Hamlet é um personagem tão denso e complexo que quem passa por ele não sai incólume. Há momentos em que ele se mostra difícil e indomável. Em outros, porém, o prazer é tanto que você se sente surfando em uma grande onda.

Os elogios que você recebeu por suas atuações no filme Tropa de Elite e na novela Paraíso Tropical o deixaram mais confiante para fazer a peça?
Talvez sim. Mas fazer Hamlet é um desejo muito mais antigo. Eu sinto como que se tudo o que eu já fiz até hoje fosse uma grande preparação para este personagem. Eu acredito que, durante toda a minha carreira, eu sempre vivi à sombra de Shakespeare. Hoje eu vejo que havia algo de Hamlet no capitão Nascimento, no vilão Olavo e em todos os outros personagens que já interpretei.

O ator Laurence Olivier, por exemplo, fez Hamlet no cinema em 1948. Você está fazendo no teatro 60 anos depois. O discurso do personagem mudou ou Hamlet continua dizendo a mesma coisa?
Nós vamos morrer e Shakespeare vai nos enterrar. Nossos netos não se lembrarão de quem nós fomos, mas eles seguramente irão saber quem foi Shakespeare. Esta longevidade se explica porque ele falou de algo que não muda com o tempo, o ser humano. Cada platéia de cada época talvez entenda o discurso de Hamlet de uma maneira muito própria, mas no fundo todos nós sempre estaremos falando do ser humano.

Mas há tantas tramas nesta peça...
A trama da vingança é só um pano de fundo para este príncipe filósofo falar sobre a gente. Sobre este abandono total em que nós, seres humanos, vivemos. Nós inventamos Deus para tentar colocar um pouco de ordem no mundo, talvez para tentar entender que raio nós estamos fazendo aqui. Hamlet é a soma de todas as nossas perplexidades.

Há pouco tempo você publicou um artigo em que criticava parte da imprensa que se mostrava mais interessada na vida pessoal do que no trabalho dos artistas. Que tipo de repercussão este artigo teve?
Eu não procurei saber. Me disseram que muitas pessoas me apoiaram na internet, que concordaram com o meu ponto de vista. Muita gente achou que meu artigo foi uma crítica direcionada a um programa específico, no caso o Pânico na TV. Mas não foi. Minha intenção, ao escrever aquele artigo, foi a de mostrar que a sociedade pode melhorar a qualidade do que é mostrado pela televisão. Nós podemos dizer um basta, não queremos ver mais isto. A televisão se alimenta de audiência, mas tem de haver um limite para tudo. Não são todos os atores que estão dispostos a participar deste jogo sórdido. Um ator que não freqüenta a Ilha de Caras, que não tomar parte neste exibicionismo, tem de ser respeitado. Eu não acredito que o público queira ver só porcaria. Eu compararia alguns programas de TV hoje com um cavalo desgovernado, correndo no piloto automático.



* [Às 2ªs, 4ªs e 6ªs é publicada a Coluna RER, exceto nos dias em que tenho muito serviço, como foi ontem. Me desculpem por isso. ]

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