lições de uma visita imprevisível...

Bati os olhos e a primeira coisa que me chamou a atenção foi aquele pequeno livro em cima da mesa, chamuscado pelas chamas que atingiram o lugar no dia anterior. Foi um incêndio na ala masculina de um lar misto de idosos. O dono daquelas páginas estava sentado ao lado da mesa, em uma cadeira de rodas.

Não foi o incêndio que lhe feriu. A debilidade era por conta da velhice e das doenças que o acometeram com o passar dos anos. Tinha o lado esquerdo paralisado, provavelmente por um derrame, e ambas as pernas amputadas. Percebi que todas as coisas que lhe importavam naquele momento estavam sobre aquela mesa: um celular, óculos e a Bíblia Sagrada. O livro já não tinha capa, apenas as folhas com as bordas queimadas. Ao pegar as páginas com a mão que ainda podia movimentar, as folhas se desmanchavam ao toque.

-- Mas só queimou a capa, falou 'seo' Augusto.

No corre-corre do incêndio, poucas coisas se salvaram, talvez só aquela pequena Bíblia foi o que pôde carregar com uma das mãos antes que o salvassem. O óculos ao lado do livro fora presente de um homem solidário após o incêndio. Mas eles ali repousavam sobre a mesa, pois não havia mais o que ler.

-- Eu passava os dias lendo essa Bíblia, ela era minha companhia, contou.

Meu coração já tinha sido tocado desde o momento que vi aquele livro. Senti então comoção ao perceber a importância de algo tão simples. Quem se preocuparia com ele em meio ao fogaréu, se não houvesse algum motivo realmente especial para isso? Em uma rotina esbaforida é difícil imaginar a vida quando os dias se tornam iguais, porque não únicos, e vividos como os últimos. Talvez, nem mesmo 'seo' Augusto tivesse pensado nisso antes que chegassem.

A leitura é o grande diferencial que transforma a vida daquele senhor de uma simples existência em uma grande razão. Ele encontrou nos livros, capítulos e versículos daquela Bíblia a companhia para suas manhãs e tardes. O mais impressionante de passar alguns minutos com 'seo' Augusto foi vê-lo sorrir todo o tempo, mesmo estando ainda sob o susto do dia anterior, vivendo limitadamente e tendo perdido seu grande companheiro - o livro.

Se eu olhasse unicamente para seus olhos jamais notaria as pernas amputadas e o corpo paralisado. Ele falou de vários assuntos, mas nenhum deles tornou o clima entre nós negativo. Não o ouvi reclamar da vida, da mudança recente para o asilo, do corpo frágil e limitado ou mesmo do incêndio que levou tudo o que tinham - das roupas de cama à estrutura física do cômodo, condenada após a ação das chamas.

***

Na semana seguinte lá estava eu. Desci a rua de terra e cascalho, íngreme e esburacada, e parei meu carro embaixo de uma árvore. Encontrei 'seo' Augusto em um dos quartos, onde provisoriamente foi instalado após o incêndio, onde mais duas mulheres também repousavam. Entreguei uma nova Bíblia, conforme prometi no dia seguinte ao incêndio, de letra gigante, como ele me pediu, para "ficar mais fácil de ler".

Desejei, por meio de uma dedicatória, que aquela Bíblia lhe fizesse sempre companhia. Eu já pensava em me retirar, mas para ele a entrega do novo livro não bastou. 'Seo' Augusto pediu que eu me sentasse à beira da cama. Ali, tiraríamos "um dedinho de prosa". O idoso me contara duas vezes sua origem mineira e as características marcantes do povo daquele Estado. Uma delas era justamente gostar de uma boa conversa e delongar horas naquele bate papo. Na conversa entrou também dona Ana, descendente de alemães de sobrenome difícil de pronunciar, e dona Maria Aparecida, quietinha e tímida, que todo o tempo apenas ouviu nossa conversa.

Conversamos como velhos amigos. Ele contou a pretensão de deixar o asilo, enquanto a pequena senhorinha alemã, com mãos atrofiadas e pés já sem alguns dedos, inchados e enfaixados, o aconselhava a não sair de onde estava. Ali era um bom lugar. Falamos de pescaria e de viagens. Dona Ana me falou de seus passeios e os lugares bonitos que visitou. Lembrou de engenhosidades que conheceu pessoalmente, enquanto eu, apenas as vi em livros didáticos do tempo da escola. Um voluntário entrou no quarto e se uniu ao papo. Falamos de nossos bairros de origem, nossas casas, nossa atividade social. Admirado com minha presença ali, comentou como hoje em dia os jovens já não se importam mais com ações de caridade.

-- Precisamos deixar sobrar tempo para caridade, disse. Não não meu caro. Precisamos dedicar tempo para fazer o bem, pensei.

Chegou o momento de ir embora, me despedi com uma vontade enorme de  abraçar cada um deles com o mesmo amor que abraço familiares queridos. Me contive, a liberdade do contato devia partir deles. E com suas limitações, era provável que restaria a cada um me oferecer apenas um aceno. Somente Maria Aparecida, a senhora silenciosa, conseguiu estender-me a mão para se despedir. Em pé na porta, já de saída, me voltei aos meus queridos amigos e ouvi um conselho e um pedido.

-- Vá pescar com seu avô, tá bom? Aconselhou o idoso.

-- Volte sempre que puder... Me pediu dona Maria.


(Foto: Roxane Regly)

'Seo' Augusto e a nova Bíblia, de letra gigante, para ficar mais fácil de ler.
* Pra quem ficou curioso, olha a foto da antiga Biblinha aqui.

Comentários

  1. João Paulo8:25 PM BRT

    Boa ação Roxane! São pessoas como você que fazem a diferença...!!!
    Sem perceber, você mudou o mundo para melhor... não digo o mundo Terra 6 Bilhões de habitantes, mas o mundo interior do "seo" Augusto. Um mundo onde poucas pessoas fizeram a diferença. Parabéns!

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