como a vida perde a graça quando nossos amores se vão... (1)

Essa semana me dei conta de como a voz dela já não é mais tão nítida em minha mente. Nossas brincadeiras tão gostosas deixaram de existir. Minhas visitas à sua janela, faz tempo, deixaram de ser uma rotina. Acenar para ela quando descia no ponto de ônibus, enquanto ela me observava do portão não faz mais parte do meu dia a dia. (Eu nem moro mais lá também). 

Tenho dificuldade em lembrar quando foi nossa última conversa, sobre o que falamos. Só lembro quando ela já se sentia mal e minhas palavras eram só tentativas de descobrir o que estava tentando a levar para longe de mim (eu mesmo nunca acreditei que fosse conseguir, mas conseguiu, ela se foi, e tão rápido).

Eu lembro do último presente que ganhei (e de muitos outros também - o tonico, um cachorro peludinho de brinquedo para suprir a ausência do verdadeiro que tinha morrido, o relógio-porta-retrato que a faxineira quebrou, alguns sutiãzinhos de menina-moça). Ela se foi perto do Natal (não houve um deles que ela deixou de me presentear).  No último, eu recebi meu presente alguns dias antes. Será que ela sabia que não haveria tempo? Que no dia do Natal ela não poderia levantar para me entregar o embrulho? Eu recordo bem dele, pois ficou guardado no fundo da minha gaveta, até hoje sem uso. Quis guardar para que vivesse junto a lembrança de quanto eu importava para ela.

Para ela eu contei que iria à faculdade, que minha matrícula estava feita, que dali a quatro anos eu seria jornalista. Eu disse a ela que que lhe daria um tataraneto (trisaneto) um dia. Não deu, tudo bem. Eu gostaria que hoje ela fosse comigo à igreja, cantasse os hinos em contralto para eu tentar aprender a cantar. Me lembro do prazer que eu sentia sempre que olhava para trás e a via entrando pela porta da igreja. Hoje eu esqueci como se faz alguns pontos em tricô e até perdi a vontade de reaprender, não tenho mais ela para me emprestar agulhas e me ensinar...

Vivemos muitos momentos juntas... Eu sabia que um dia a memória enfraqueceria tantas lembranças, isso sempre me deixou triste. Hoje vejo como apesar de sempre dizer que entendi, que aceitei, que superei sua partida, é muito difícil viver sem ter seu abraço, sua voz fina e seu carinho. Aquela flor que com carinho beijei e coloquei em suas mãos ela já não viu. Mas deve ter ficado feliz quando eu disse 'fica com Deus' ao entrar naquela porta de UTI. Tanto que não só ficou, mas quis ir morar com ele! E sabe o que lembrei  (o que todos os anos lembro, por sinal)? Seu aniversário seria semana passada... Mas flores sobre a lápide já não chegam mais a ela, não lhe provocam o sorriso sincero que todos os meus parabéns lhe causaram... (por isso desistir de levá-las até o Saudades).

Quis escrever tudo isso só para não esquecer como a amei. E como a vida perde a graça à medida que vamos perdendo esses amores! Minha Rora, minha bisa-Rora! (Quase cinco anos sem você...)

Sua foto em minha carteira... sempre que eu não quero me
esquecer, olho para ela e me lembro um pouquinho dela...

Comentários

  1. Joao Paulo8:18 PM BRT

    Lembro-me dessa época...

    Realmente, certas coisas perdem a magia após a saída do mágico da cena.

    Força e fé!

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