Violência contra a mulher


O meu coração se encheu de dor e agonia depois que eu vi pela primeira vez, no início daquela tarde, a notícia com a foto de uma jovem mulher que teve suas mãos decepadas pelo companheiro, caso de violência doméstica. Como parte da minha rotina, voltei várias vezes a entrar naquele portal, para me atualizar das notícias. E todas as vezes que descia a página, dava de frente com a foto dela e, confesso, eu queria chorar.

Gisele é uma moça nova, 22 anos. E após anos e anos em um relacionamento completamente abusivo, decidiu romper com a prisão que vivia. O resultado foi desastroso. O companheiro enfurecido desferiu-lhe golpes com um facão. Para proteger-se usou as mãos, que foram decepadas, e em seguida os pés, também cortados, além de taios na cabeça e por todo o corpo.

O que restou daquela linda mulher é uma vida destruída, deitada sobre a cama com ambos os pés recém-enxertados e sem as mãos. Deficiente, impotente, sem os cabelos, cheia de cortes e talvez de medo. Por outro lado, também vítima daquela opressão, não expõe ressentimento ou mágoa, fala até em perdão ao agressor.

Eu li então seu depoimento. A tragédia veio após sete anos de relacionamento, que começou ali no auge da adolescência. Ela disse que por vezes apanhou, mas nunca contou a ninguém. Achava que as agressões eram compreensíveis. Agora, depois da tentativa de homicídio, queria o homem longe, porque não imagino que chegaria ao ponto de tentar matá-la.


Toda essa história indigesta e dolorida ficou pairando em minha cabeça e me fez lembrar de uma série de coisas. Aos 15 anos, eu era absolutamente diferente do que sou hoje, aos 26. Inteligente, esperta, desinibida, mas faltava sim maturidade física, psicológica e espiritual para encarar a vida real e cruel do dia a dia. Eu era uma garota!

E como era divertido ser uma menina de 15. Quanta coisa divertida fiz, quantos bons amigos tive, passeei, conheci, aprendi... E quanto tempo eu tive para isto. Tive os 15, os 16, 17, 18... Nada nem ninguém me prendia! Aos 22 eu já alcançava uma nova fase. Graduada, empregada, fazendo novos cursos, novos amigos, participando de projetos. Aos 23 me inscrevi em um voluntariado em outro País, morei fora, trabalhei, bati papo, viajei... Quanta vida! Enquanto isso, Gisele foi o oposto. Deixou até mesmo de estudar, trabalhar e entrar em redes sociais, por imposição de um homem obssessivo.

Outra coisa que me amargou imensamente no caso foi lembrar como eu me sentia quando era solteira e tinha lá meus paqueras. Eu era criteriosa, tinha sim uma série de requisitos, que iam da aparência aos gostos e hobbies, passando até pelo nível de estudo e grau de comprometimento profissional e espiritual. Bobagem quando o que de fato me preocupava e eu morria de medo era da insanidade de alguns homens. Eu morria de medo de conhecer um cara obsessivo e quando vejo casos de “Maria da Penha”, me lembro desse medo e angústia e penso, poxa, porque isso tem mesmo que acontecer? Como pode, meu Senhor, alguém chegar a esse ponto? Essa possessão intimidadora, de “você é minha e quando não der mais pra segurar eu dou cabo da sua vida!”

Doeu muito todas as vezes que eu vi aquela foto, quando pensava nesse paradoxo, nos sete anos de escravidão dela, contra toda uma vida livre que ela tinha direito de ter. De um desfecho tão triste, talvez mais triste que a própria morte, de uma deficiência adquirida, limitante. Poxa!

E por fim, porque mulheres se submetem todos os dias a agressões, abusos, ameaças? Por que não são protegidas? Por que permitimos isso? Por que elas se fecham? Por que não contam a ninguém? Por que aceitam? Não, mulher não gosta de apanhar! Não, isso não é amor! E também não, ela não tinha forças pra sair dessa situação sozinha!

Não tem resposta assim, na ponta da língua. Não dá para se conformar, não dá para não sentir dor. Chega de Giseles, Priscilas, Cristianes, Marias da Penha!!!!


Comentários

  1. Quando li essa reportagem fiquei mal o dia inteiro. Assim como aconteceu contigo, as fotos e cenas formadas em minha mente passavam por várias vezes diante dos meus olhos, como se eu tivesse assistido tudo ao vivo. Fato que me deixou ainda mais angustiado, pois era como eu estivesse presente e não pudesse fazer nada. Meus sentimentos ficaram divididos em compaixão pela moça e ódio do agressor. E esse sentimento de impotência continuam a me abalar e frustrar... pois, infelizmente, casos como esse não param de acontecer, e eu aqui na minha vidinha, tendo consciência disso, fico perdido e aprisionado em meus sentimentos, sem saber o que fazer para poder impedi-los.

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