Uma conversa especial

Percorrendo um bairro da periferia da cidade essa semana, tive a oportunidade de ter uma conversa que, com sua simplicidade, pude definir como especial. Eu aguardava dentro do carro, enquanto repórteres do Jornal de Limeira estavam do outro lado da rua fazendo uma matéria.

Era uma tarde quente, mas plenamente suportável. Enquanto esperava, eu fuçava o celular, coisas que já estava cansada de ver. Um jovem foi se aproximando pela parte traseira do carro e chegou à janela do motorista. Eu estava no banco do passageiro.

-- Oi!
-- Oi, tudo bem? -- Respondi.

No milésimo de segundo antes de responder, me passou pela cabeça uma ligeira insegurança. Estar à bordo de um carro de reportagem é determinante para nunca se saber se está protegido ou não. Pode parecer preconceito, mas o receio faz parte de nosso dia a dia. -- O que ele quer? -- Foi o que pensei. Mas olhando bem seus olhos mostravam bondade, ingeinuidade eu arriscaria.

-- Estou bem. Sabe, eu trabalho na Aril. -- Me contou com alegria e um belo sorriso no rosto.

Lembrei-me de imediato dos jovens alunos da Aril (Associação de Reabilitação Infantil Limeirense) que trabalham no CHTP (Centro de Habilitação e Treinamento Profissional). Visitei esse departamento ano passado, durante a produção do meu TCC.

Os jovens seguem naquele local uma rotina de trabalho como preparação. Ali fazem atividades que os capacitam para o trabalho em linhas de produção, por exemplo. Montagens de pequenas pecinhas de componentes eletrônicos é uma delas. Mas uma das atividades mais comuns é feita com jornais doados pela população.

É feita a organização por tamanho, a contagem e a alinhagem, enrolados em pacotes de mesmo tamanho. Ou ainda a picotagem desse material em máquinas próprias para em seguida serem vendidos a fábricas de cerâmica que enrolam suas peças com as folhas e preenchem os espaços entre umas e outras com o jornal picado.

-- O que você faz lá? -- Perguntei.
-- Faço jornal. -- Respondeu-me.
-- Ah, é? Mas o que você faz com eles? Separa e enrola ou pica?
-- Pico.
-- Que legal! É bom mesmo trabalhar, né?
-- É sim, ganho dinheiro e posso ajudar minha família!

Aquele jovem é considerado uma pessoa especial. Isso porque possui alguma deficiência, creio eu que seja mental. Com 20 anos (quase a mesma idade que eu) é para ele um orgulho a sucessão de conquistas e superação ao que poderia ser um "problema". Ele relatou ainda sobre os cursos que faz, a igreja evangélica que frequenta a poucos metros de sua casa e como os músicos da banda que toca ali são bons. Falou ainda das férias do irmão mais novo e que logo as dele também encerrariam e ele deveria voltar ao trabalho. Com uma pipa na mão, ouviu o irmão gritar de longe, pedindo-lhe algum favor.

-- Já volto moça, preciso fazer algo.

E saiu correndo na mesma direção de onde veio. Daqui a pouco voltou empinando a pipa, no vento médio que fazia naquele dia. Já era minha hora de ir, todos estavam no carro e ligávamos os motores para sair. O "menino" passou por nós correndo. Em mãos uma latinha que servia de carretel para enrolar o restante da linha que se esticava da ponta de seus dedos.

-- Vão lá visitar a Aril, hein?! -- Ele gritou.

Continuou correndo com o irmão, com a simplicidade de uma criança, mas carregando em seus ombros a responsabilidade de um jovem trabalhador.

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