a vida e o mistério
Muito já se falou esta semana sobre a morte de uma jovem de 21 anos no último sábado, na Ponte do Esqueleto, em Limeira-SP. Ela participava de uma atividade radical, conhecida como rope jump, e ao ser arremessada para um "salto aviãozinho" a equipe não verificou o básico: não havia corda acoplada a seu corpo e a moça foi direto para o chão, de uma altura de cerca de 40 metros.
Quando os primeiros fatos chegaram, foi difícil acreditar. Cheguei a dar o "benefício da dúvida", mas os vídeos começaram a circular e não tive mais o que hesitar. Três pessoas que venderam a ela o salto não fizeram o básico do básico. De maneira criminosa e bizarra, como se fossem zumbis, desconectados da realidade, do contexto, da ocasião, lançaram a mulher para seus últimos segundos de vida.
Como todos que acompanharam as notícias, pensei tanto naquilo, nas tantas camadas do fato... Mas o que quero mesmo falar aqui não é sobre culpa ou dolo, sobre responsabilização relacionada ao local, à prática, a atos passados ou futuros. A morte dessa jovem me trouxe duas principais reflexões, que quero compartilhar hoje.
A primeira que me veio à mente naquele sábado, pouco depois da notícia se espalhar, é, de certo, a mais clichê. É aquela reflexão sobre quem fica. Esse tipo de pensamento passou a ser comum para mim na última década, depois que me tornei mãe. A famosa frase "quando uma mãe chora, todas mães choram juntas" me bateu fundo no peito ao pensar que poderia ser uma filha minha. Não naquela ocasião ou tempo, mas eu podia estar chorando a perda de uma filha e isso me doeu profundamente, em solidariedade àquela mãe.
Dos detalhes que desconhecemos, pensei como naquela madrugada uma moça jovem, independente, cheia de vida, que estudava, trabalhava, sonhava, acordou cedo, talvez tomou um café e deixou sua casa com a promessa de voltar em breve. A mãe certamente seguiu em sua rotina... Uma mãe que viu sua filha sair feliz de casa e precisou em poucas horas lidar com a notícia devastadora de sua partida.
Por outro lado, a notícia polêmica aflorou em mim sentimentos muito particulares que me aproximavam de Maria Eduarda. A jovem de 21 anos, estudante universitária, em busca de aventura e diversão. A Roxane de 15 anos atrás também era como Duda. Aos 21 anos, eu também descobria o mundo por muitas lentes.
Eu fui à Ponte do Esqueleto com amigos pela primeira vez aos 22 anos, num passeio de bike, quando a ponte nem era tão popular e frequentada quanto recentemente. Produzi ali uma videocrônica, captei imagens lindas, ângulos diferentes, a trilha, a volta para casa, flagrantes cotidianos de uma brincadeira entre amigos. E eu voltei à ponte de bike diversas vezes nos anos seguintes. Nunca fui tão radical. Apenas me sentava para descansar, observar a paisagem, o pôr do sol, o apito do trem... Mas podia ter sido. Se eu fosse hoje a jovem universitária, talvez as lentes que traduzissem para mim o mundo normalizariam a busca por adrenalina.
Porque a Roxane de 21 anos também se aventurava, também acelerou fundo quando deveria ir devagar, também experimentou mergulhos e saltos em diversas perspectivas. Eu não parei de pensar na minha vida de 15 anos atrás e na tragédia... Podia ser eu. Podia ser a minha mãe. Podia ser meu futuro enterrado ali naquele gramado. Esse é um daqueles casos em que eu sei que meus pensamentos nunca vão chegar a lugar nenhum. Algumas tragédias não deixam lições. Deixam apenas perguntas. E a certeza de que os desígnios da nossa vida sempre serão um mistério.

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